Oito horas. Janela aberta e a vista direcionada ao mundo. Seis, sete prédios, três cafés um bar e uma loja de camisetas masculinas. Vista Bela Vista. Mundo Mundo Vasto Mundo. Movimentação na paisagem da janela dá mais movimento ao texto, já percebeu?
O vento bateu forte, veio forte e do fundo, deixou flores da tentativa de jardim na varanda entrarem pelo quarto, acordei.
Puta merda mas que sono. Parecia que tinha levado uma surra durante a noite. E olha que dormi bem. Aliás, eu sempre durmo bem. E essa cidade sempre me acorda muito bem também. Ou ela se acorda bem e eu acabo bem por osmose?
Derrubei o café, porra, que saco, meu único pijama. Agora me servem as blusas velhas. Ou novas. Tomei um banho quente, muito quente, sempre quente, troquei de roupa quase descendo. Aliás, desci quase trocando de roupa. Sei lá, eu que tava trocada.
Chegando no primeiro bar de esquina, parei, olhei pra cima, pros lados, pra frente, pra dentro, e pensei: O que que eu tô fazendo oito horas da manhã de sexta na rua? Tô desempregada faz três meses, não estudo mais, não tenho médico esse mês, meu dentista foi semana passada... Já era, meu sono já era, vou andar. Parei em três cafés em uma hora e meia. Fumei 12 cigarros em uma hora e meia, pensei tanto que não tinha sol nem calor e eu tava quente. Como se tivesse me bronzeado sem protetor. Como se fosse difícil pensar, e eu não era uma desempregada vagabunda, eu andava sempre pensando. Pensando na vida, nas moléculas, na energia-sintonia ou essa coisa cósmica que me ronda, nos outros, em mim, sempre em mim, mas nunca fui do tipo cada um por si e todos por mim. Assim, querer eu queria, mas eu sei que as coisas não são assim e eu sempre fui por todos também.
Eu tinha pressa, sempre tive pressa, andava com os passos largos, meio bambos, como se esperasse alguma coisa acontecer. Tinha uma fé em coincidências, ou no inevitável, ou no destino, seja lá como você queira chamar isso...Fé em que, por ter saído de casa que nem tonta as oito da manhã em plena sexta feira alguma coisa boa tinha que me acontecer. Acreditava ou queria acreditar que o universo queria minha presença naqueles cafés, minha fumaça naquelas quadras, minha boca naqueles doze cigarros, meus pés naqueles ladrilhos, aquelas buzinas no meu ouvido às oito da manhã, mas fé andava me faltando, não que ela tenha faltado nesse dia, mas só pra constar que eu não andava carregando muita fé em nada. Muito menos na vida, no universo, ou em mim.
Alguma coisa tinha que fazer sentido, já que eu não fazia - nem ali na rua, nem na minha vida - "por enquanto" eu pedia, pedia que tudo isso e aquilo fosse por enquanto. Que só por enquanto o sono me faltasse - e pedia todas as noites -, que só por enquanto a solidão me visitasse, que só por enquanto eu fosse triste.
Passava dias triste, sem comer direito, ou comendo muito, dependia do meu acordar - e esse acordar não dependia do acordar da cidade - sem poder usar de tudo que eu tinha de bom e de alegre a dar ao mundo ou só as esquinas do meu bairro ou só ao centro da cidade onde havia tanta gente, tanto movimento... mais movimento do que perto da minha casa, e olha que já tinha tanto, tanto que quase fiquei perturbada (ou fiquei e não sei) um tempo de tantos passos e carros e escapamentos de motos. Mas eu adorava.
Queria que meus braços voltassem a abraçar o mundo que nem me conhecia mas que passava a conhecer quando eu o rasgava com um sorriso. Ai, como fazia tempo.
Aí pensei que o mundo e essa coisa cósmica e essa minha fé tinham se juntado e conspirado pro meu acordar nessa sexta feira fria. Acordar pra vida. E talvez tivessem mesmo, talvez tudo isso tivesse formado um inconsciente coletivo comigo, com o meu universo ali, pequeno médio grande, e me feito acordar. Aí uma fé bonita que eu tinha no mundo talvez fizesse meus abraços abrirem de novo.
Mas uma tristeza vulgar que eu tinha em mim, vulgar de tantas vezes que a repeti, por que ela era única em relação ao mundo (era tão original que nem sabia por que chorava) andava na minha sombra. É que na verdade eu nunca consegui passar pela solidão sozinha...
terça-feira, 24 de julho de 2007
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2 comentários:
Muito foda...queria poder ajudar vc a publicar isso! até me imaginei andando por aí..
ps- é o Omar falando...rs
nem dá vontade de publicar mais nada só pra deixar esse texto ai. maravilhoso.
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